Ouro Preto, Ouro Branco, Itaverava, Conselheiro Lafaiete, Tiradentes

No fim de março eu e o Cris fomos para Ouro Preto. O Cris foi participar de um Workshop de fotografia urbana, a Magnum Caravan Brazil. Eu fui passarinhar, tendo como guia o Rodrigo Vieira, indicação do amigo Ricardo Mendes.

Achava que o passeio em Ouro Preto seria em estradas rurais, parques urbanos, talvez algo no Parque Estadual do Itacolomi. Não sabia que a região das Cidades Históricas tem grandes áreas preservadas de Mata Atlântica graças a empresas como a CSN, Gerdau, Vale. São as áreas de reserva legal, e há várias estradas que cortam a área da mata. Pegamos alguns dias ruins, de andar na mata e passar horas sem ouvir nem um pio. Mesmo assim, consegui ótimas fotos de formigueiro-da-serra, choquinha-de-dorso-vermelho, tangarazinho, pomba-amargosa, assanhadinho-de-cauda-preta (lifer), barbudinho (lifer), borralhara, cauré, gavião-de-rabo-branco o melânico e o normal em voo, guaracava-de-topete-uniforme, papa-taoca-do-sul macho e fêmea, saíra-douradinha. Algumas espécies que a foto não ficou grande coisa, mas eram lifers: formigueiro-assobiador, andorinhão-do-temporal. Consegui uma foto de pavó no contraluz que vai entrar como primeiro registro de pavó para Ouro Branco, se eu postar logo :), e também fotos do sabiá-ferreiro e do sabiá-coleira, apareceram ao mesmo tempo, num playback especial do Rodrigo.

Destaques:

– O Parque Estadual do Itacolomi em geral tem bons avistamentos, mas nesse dia vimos poucos bichos. Em compensação, a borralhara se apresentou e num momento pousou quase no limpo. Esse bicho é lindo.

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– no Parque Estadual da Serra do Ouro Branco, vimos uma ave de rapina pousada numa árvore seca. Cauré. Fotografamos de longe, e depois falei o de sempre “vamos ver quanto desaforo essa ave aguenta”. E fui me aproximando devagar. Descobri que ela aguentava muito desaforo. Cheguei até o pé da árvore, e ela continuou lá. Só foi embora depois de um tempo, quando o Rodrigo se aproximou também, daí acho que foi demais pra ela. Eu já tinha fotografado muito, só não peguei fotos boas dela decolando por pataquada na regulagem da câmera. É sempre emocionante poder chegar tão perto desses bichos.

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– numa estrada em Itaverava, estávamos ouvindo um chamado insistente de ave de rapina. O Rodrigo com sua super-visão localizou o bicho pousado bem longe. Longe e com mormaço. Ele olhava com binóculo, eu fotografava, e a gente não conseguia descobrir o que era. Tinha face e pescoço branco, algo como se fosse um capuz cinza, topete, resto do corpo preto. Meu Deus, que bicho é esse?? Passamos uns minutos eliminando da lista os bichos mais comuns e achando que era algo muito diferente e lamentando não ter sinal de celular pra mandar o som pro Wagner Nogueira. O Rodrigo gravou, eu fotografei, havia outro vocalizando, mas num lugar em que podíamos tentar adentrar na mata. Fomos atrás do outro e topamos com o bicho, fim do mistério. A ave de cores misteriosas era um gavião-pega-macaco juvenil.

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– Tive a oportunidade de observar um bando de saíras-douradinhas se alimentando de frutos silvestres, na altura do olho. Elas chegaram, depois foram descendo, descendo, e nos ignoraram totalmente. Você fica maravilhado de poder presenciar um pouco da vida dos bichos e não se sentir um intruso. O Rodrigo me contou que não é raro elas fazerem isso em Minas: não se importam com a presença das pessoas e chegam bem perto.

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– A pomba-amargosa também foi um ótimo momento: vimos quando ela voou do barranco, mas ao fazer a curva, topamos com ela na beira da estrada, no limpo e olhando pra gente. Minha câmera estava no colo e deu tempo de clicar antes dela voar.

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– Também considero um grande privilégio voltar de um passeio com três thamnophilideos: formigueiro-assobiador, formigueiro-da-serra, choquinha-de-dorso-vermelho.

Guia ornitológico

O Rodrigo é um ótimo guia. Roda muito na região, sabe onde procurar os bichos, tem pique de guia mateiro, tem GPS na cabeça e nunca se perde, foi do exército, é fotógrafo de eventos. Ele não leva a câmera, só o playback. Uma companhia muito agradável. Só não fotografamos mais porque foram dias bem parados de aves, mas deu pra ver que o Rodrigo conhece bem os locais e que a mata tem muitos bichos. Ele falou que na primavera, alguns dos locais que fomos ficam com uma sinfonia de cantos de aves.

Outra qualidade do Rodrigo é que ele adequa o passeio aos desejos do cliente. Sei que nem todo guia se conforma com slowbirdwatchers como eu, que desfocam da ave e começam a olhar borboletas, besouros, flores, são capazes de ficar um tempão fotografando canários-da-terra comendo sementinhas. Mas isso não era problema pro Rodrigo, que não se sentia compelido a buscarmos a maior lista possível de espécies, ele viu que meu pique era outro, e logo estava prestando atenção nos insetos também e me apontando quando via algo diferente. Além das borboletas e besouros, vimos boas aranhas, inclusive uma caranguejeira linda.

Infraestrutura

Fiquei hospedada em Ouro Preto. No primeiro dia o Rodrigo me encontrou no hotel, nos outros eu dirigia 30km até um ponto de encontro em Ouro Branco, pegava o Rodrigo lá, e íamos rodar. O Rodrigo tinha a sugestão dos locais, e programava o passeio de forma que de manhã fazíamos passeio na mata, almoçávamos na cidade, depois à tarde íamos pra alguma zona de brejo ou pasto.

Eu não sei apontar no mapa, mas rodamos por muitas estradinhas de Ouro Branco, Itaverava, Conselheiro Lafaiete, Monsenhor Isidro. Rodávamos bastante todos os dias, tive que abastecer o carro duas vezes (em Ouro Preto, a gasolina estava R$ 4,09. Em Ouro Branco, dava pra achar por uns R$ 3,90). Não era ruim andar pelas estradas, porque víamos cenários muito bonitos. Eu estava com um Suzuki 4×4, mas não teria sido necessário. O pior trecho, no Parque da Serra de Ouro Branco, estavam passando trator no dia que fomos. Havia uns pedaços de estrada com valas profundas, mas vimos carros pequenos passando por lá, é só ir devagar.

A região, além de bastante cênica, tem a grande vantagem da estrutura turística. Em Ouro Preto ficamos na Pousada dos Ofícios, quarto amplo, ótima cama-lençóis-toalhas, café da manhã (que eu só tomei no último dia, nos outros saía cedo demais. Infelizmente o café só começava às 7h), funcionários gentis e solícitos. Diária de menos de R$ 200 pro casal. Muitas opções de restaurantes e botecos, pro almoço sempre havia vários bufês, inclusive restaurantes de beira de estrada, em que você podia comer bem por menos de R$ 20. Quem quiser ver os restaurantes da viagem, estão neste post: http://heart3.me/restaurantes-em-ouro-preto-e-tiradentes-mar2016/

Na cidade de Ouro Preto fica o Parque Estadual do Itacolomi, um local agradável, com uma gestora totalmente a favor dos birdwatchers. Ela tinha autorizado nossa entrada mais cedo, e quando passamos na sede pra pagar o ingresso, ela falou “mas vocês são observadores de aves, não? Então não precisam pagar”. Com certeza uma postura fruto dos anos de bons trabalhos da Ecoavis, que estabeleceu ótimas relações com as instituições que cuidam dos parques de Minas.

O Parque do Itacolomi é bem legal, mas a maioria dos nossos passeios foi na região de Ouro Branco. Por isso, quem pretende passarinhar na região, parece mais proveitoso ficar hospedado em Ouro Branco, uma cidade grande a 40km de Ouro Preto, com muitas opções de hotéis e restaurantes.

Além do Rodrigo, você também tem a opção de fazer o passeio com a agência Minas Birding Tour, do Ricardo Mendes. Aliás, o Rodrigo e o Ricardo são amigos, quando um não pode atender passa cliente pro outro. https://minasbirdingtours.com.br/destinos-e-roteiros/ouro-preto-ouro-branco/

Passarinhando sozinha

Contratei o Rodrigo para terça a sexta. No sábado saí pra passarinhar sozinha, fui conhecer o vilarejo de Lavras Novas, muito bonitinho, a vila de Itatiaia, e passei por algumas das estradas que eu tinha ido com o Rodrigo. Na região de Itatiaia, perto da rodovia, topei de novo com um bando de saíras-douradinhas que não tinham medo de mim, e nesse bando misto havia uma saíra-ferrugem que pousou a menos de 3 metros (pena que num ângulo ruim). Um casal de saí-azul chegou e tomou banho numa pequena poça de água formada por uma curva de um tronco. Eu estava no meio de uma trilha, me sentindo invisível. Depois que saí dessa trilha, peguei o carro, rodei alguns metros e ouvi barulho de gralhas. Parei pra ver e topei com o tal pavó (talvez sendo enxotado pelas gralhas), perto, baixo, no limpo, mas infelizmente no contraluz.

Me senti segura pra passarinhar sozinha, inclusive em trilhas desconhecidas. Ser mulher e entrar sozinha no meio do mato num lugar onde você nunca foi, carregando uma DSLR pode não parecer a coisa mais inteligente. Num parque urbano de São Paulo eu não vou pra lugares de mata fechada e isolados do fluxo de pessoas, mas nas cidades pequenas em geral me sinto segura. No final da vila de Itatiaia tem uma estrada de terra margeada por mata, e com uma plantação grande de café do lado esquerdo. Do lado direito havia cerca, com aquelas entradas estreitas pra pedestres. Entrei, topei com um bando misto de bico-virado-carijó, cabeçudo, barbudinho (lifer), tiê-preto. Me perdi um pouco na hora de voltar, saí num outro ponto mas reconheci os locais que tinha passado de carro e voltei sã e salva pro hotel :)

No domingo eu e o Cris fomos para Tiradentes. Ficamos hospedados na Pousada da Trilha, um lugar com vista maravilhosa (https://www.tripadvisor.com.br/Hotel_Review-g737098-d7258020-Reviews-Pousada_da_Trilha-Tiradentes_State_of_Minas_Gerais.html), donos simpáticos, café da manhã caprichado com pão-de-queijo caseiro assado na hora, suco de laranja espremido na hora. Fiz um pedaço da Trilha do Carteiro mas não parecia promissor para ver aves, acabei voltando. Na frente da pousada tinha um brejo em que consegui lindas fotos de aranhas, teias, e baiano.

Na segunda-feira passeamos na Estrada Parque que liga Tiradentes a Prados. O Rodrigo havia dado a dica de que a estrada é boa, e que eles já tinham pegado casal de urubu-rei pousados lá. Vimos que a área é interessante, mas chegamos em horário ruim, não vimos bichos fora um tangará.

Na cidade de Bichinho fotografei um bom gavião-de-rabo-branco voando baixo. Eu vi e falei “parô-parô-parô!!”, mas não falei pro Cris o que era, só desci correndo. Ele achou que eu tinha me interessado por umas esculturas de galinha-d´ángola de uma loja, e levou alguns segundos pra reparar no gavião. Quando ele me contou do equívoco, expliquei que eu nunca teria falado um “parô-parô-parô!!” pra um enfeite de loja. Descer do carro desesperada geralmente significa ave de rapina no céu. Teve uma vez que tentei descer sem tirar o cinto :)

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Pra mim e pro Cris, essa região de Minas trouxe uma sensação de Colorado brasileiro. Fomos pro Colorado em julho do ano passado e nos maravilhamos com essa sensação de locais tranquilos e seguros em que você pode fazer um roteiro de carro, com cidades próximas e ótima estrutura turística. http://heart3.me/viagem-colorado-denver-garden-of-the-gods-pikes-peak-great-sand-dunes-np-mesa-verde-np-black-cannyon-of-the-gunnison-np-rock-mountain-np-jul2015/. Em 2012 passei uns dias em Glaura (um distrito de Ouro Preto), com o Wagner Nogueira e a Camila Lima. O Wagner estava fazendo um monitoramento de uma área e convidou pra ir junto.  Foram dias em que a estiagem prolongada deixou a mata mais quieta do que o normal, mas mesmo assim vimos vários bichos legais: http://virtude-ag.com/pa-glaura-out2012-claudia-komesu/

Gostei muito de passarinhar na região das Cidades Históricas e recomendo o passeio. Tranquilo, seguro, ótima estrutura turística. Só não parece fácil pra passarinhar sozinho, recomendo contratar o Rodrigo ou a Minas Birding pelo menos dois dias.

Lista das aves

Ouro Branco, Itaverava, Conselheiro Lafaiete são cidades próximas e pra mim nem sempre estava claro o limite de cada uma. Pra facilitar, consolidei numa lista só as aves que vi e fotografei na viagem toda, incluindo Tiradentes e Prados.

145 81 39
Nome Comum vita/ouvida foto foto boa
alegrinho 1 1
alma-de-gato 1
andorinhão-do-temporal 1 1 1
andorinha-pequena-de-casa 1 1
andorinha-serradora 1
anu-preto 1 1
arapaçu-verde 1
assanhadinho-de-cauda-preta 1 1 1
baiano 1 1 1
barbudinho 1 1 1
barbudo-rajado 1 1 1
beija-flor-de-orelha-violeta 1
beija-flor-de-peito-azul 1 1
beija-flor-rubi 1
beija-flor-tesoura 1
bem-te-vi 1
besourinho-de-bico-vermelho 1
bico-chato-de-orelha-preta 1 1
bico-de-lacre 1 1
bico-de-veludo 1 1
bico-virado-carijó 1 1 1
bigodinho 1 1 1
borboletinha-do-mato 1
borralhara 1 1 1
cabeçudo 1 1 1
cambacica 1
canário-da-terra-verdadeiro 1 1 1
canário-do-campo 1
canário-do-mato 1
caneleiro-verde 1 1 1
caracará 1 1 1
carão 1 1
carrapateiro 1
cauré 1 1 1
choca-da-mata 1 1
choca-de-chapéu-vermelho 1
chopim-do-brejo 1
choquinha-carijó 1 1
choquinha-de-dorso-vermelho 1 1 1
choquinha-lisa 1 1 1
chupa-dente 1 1
cigarra-bambu 1
cigarra-do-coqueiro 1 1
coleirinho 1 1 1
corruíra 1
corruíra-do-campo 1 1
curutié 1 1 1
estalador 1 1 1
falcão-de-coleira 1 1
figuinha-de-rabo-castanho 1 1
filipe 1 1 1
fim-fim 1
flautim 1
fogo-apagou 1
formigueiro-da-serra 1 1 1
frango-d’água-azul 1 1
frango-d’água-comum 1 1
freirinha 1
garça-branca-pequena 1
garça-vaqueira 1
garibaldi 1 1
gavião-caboclo 1 1 1
gavião-carijó 1
gavião-de-rabo-branco 1 1 1
gavião-pega-macaco 1 1
gibão-de-couro 1
gralha-do-campo 1 1
guaracava-de-barriga-amarela 1 1
guaracava-de-topete-uniforme 1 1 1
inhambuguaçu 1
irré 1 1
jaçanã 1
jacuaçu 1 1
japacanim 1
joão-de-barro 1
joão-de-pau 1
joão-porca 1 1 1
lavadeira-mascarada 1
limpa-folha-de-testa-baia 1
maria-preta-de-garganta-vermelha 1 1 1
maria-preta-de-penacho 1 1 1
martim-pescador-verde 1 1
noivinha-branca 1 1 1
papa-moscas-de-costas-cinzentas 1 1
papa-taoca-do-sul 1 1 1
pardal 1
pavó 1 1
peitica 1
periquitão-maracanã 1 1
periquito-rei 1 1 1
pé-vermelho 1 1
pia-cobra 1 1
pica-pau-anão-barrado 1 1 1
pica-pau-do-campo 1
pichororé 1
pintassilgo 1
piolhinho 1
pitiguari 1
pomba-amargosa 1 1 1
pomba-de-bando 1
pombão 1
primavera 1
pula-pula 1 1 1
quero-quero 1
rabo-branco-de-garganta-rajada 1
risadinha 1 1 1
rolinha-roxa 1 1 1
sabiá-barranco 1
sabiá-coleira 1 1
sabiá-do-campo 1
sabiá-ferreiro 1 1
sabiá-laranjeira 1
sabiá-poca 1
saí-andorinha 1 1
saí-azul 1 1 1
saíra-amarela 1 1
saíra-de-chapéu-preto 1 1
saíra-douradinha 1 1 1
saíra-ferrugem 1 1
sanhaçu-cinzento 1
sanhaçu-de-fogo 1 1
seriema 1
socozinho 1
suiriri 1
suiriri-cavaleiro 1
suiriri-pequeno 1
tachuri-campainha 1 1
tangará 1 1
tangarazinho 1 1 1
teque-teque 1
tesoura-do-brejo 1 1 1
tico-tico 1
tico-tico-rei-cinza 1
tiê-de-topete 1 1
tiê-preto 1 1
tipio 1
tiziu 1 1 1
tororó 1
trinca-ferro-verdadeiro 1
tucanuçu 1
tuim 1 1
uí-pi 1
urubu-de-cabeça-vermelha 1
vite-vite-de-olho-cinza 1 1
viuvinha 1