Limpar toda a vegetação aquática de uma lagoa é um grande crime contra a natureza

  • Texto: Claudia. Fotos: Claudia – Canon 7D e lente Canon 100-400, Cristian – Nikon D800 com Nikkor 300 2.8 e tele 2x
  • Passeio em Águas de São Pedro, nos dias 15 e 16 de setembro de 2012. Ficamos no LS Villas Hotel

Escrevi e demorei pra postar. É sobre um passeio feito em setembro de 2012. Em setembro de 2007, por acaso, topamos com uma pequena represa em Águas de São Pedro. Garça-moura pescando peixão,  jaçanãs adultas e filhotes – com seus pés monstruosos, frangos-d´água-azul pegando frutos das ninfeias, jacarés, uns patinhos de cara rajada, que depois descobri que eram marrecas-de-bico-roxo. Uma espécie presente no país todo, mas lifer pra muita gente.

A gente nunca soube o nome do lugar, mas pela nossa descrição, uma amiga que tinha morado em Águas de São Pedro falou que devia ser o minipantanal. Procuramos, não achamos o endereço. Olhando pelo mapa do Ipad, fomos para um local com água, reconhecemos o bairro de casas bonitas “sim, foi por aqui”, e chegando em frente à água dissemos, “não, estamos errados, não foi aqui”.

Ficamos tão desnorteados que não queríamos acreditar. Passamos uns 15 minutos analisando o mapa da cidade, procurando outros lugares com água, rodamos de carro, e tivemos que reconhecer que o local era aquele, mas estava tudo errado. A represa tinha virado um deserto: sem nenhuma planta aquática, sem nenhuma ave aquática. Um espelho de água estéril.

Me deu vontade de chorar. Pensei no Geiser Trivelato, com quem uns dias antes tinha trocado e-mails, ele contando da destruição de um brejo em Jacutinga. Pra ele devia ter sido muito pior a sensação, e que eu precisava me relembrar de todas as coisas positivas que eu tinha escrito.

Andamos devagar de carro, encontramos umas ruas com estradas de terra, sarjetas, mas ainda sem casa, e mato em volta. Paramos o carro lá, fomos caminhando devagar. Vimos até um tico-tico-rei, que depois descobri ser lifer pra cidade, mas não consegui fotografar. Pensando em ir embora da cidade, ir para outra, ou voltar pra São Paulo.

Então apareceu um homem, careca, óculos de sol, com dois cachorros grandes. Ele se aproximou de mim e perguntou “você gosta da natureza?”, “gosto muito, especialmente das aves”, “conhece um laguinho que fica ali na estrada, a uns 300 metros daqui? Fica num condomínio fechado, mas acho que vocês podem entrar. Tem um lago lindo, com muitas aves”.

Fomos lá, e de longe já prometia. Vegetação aquática bonita. Chegamos mais perto, uma garça-moura se afastou, vimos os frangos-d´água, os comuns e os azuis,  jaçanãs. Eu já estava com um sorriso de orelha a orelha, quando de repente olho de novo, e vejo uma marreca-de-bico-roxo. “Uma marreca-de-bico-roxo!!”, e então mais outra cabecinha aparece, outra, outra, outra… um bandinho de cinco, e depois descobrimos que havia mais de 10. Parecia milagre.

Sentamos na beira do laguinho e aproveitamos muito. Quando ficou muito calor, voltamos pro hotel, dormimos, voltamos depois das 16h, mas já perdendo o banho das marrecas. No dia seguinte chegamos lá às 7h30, e ficamos até umas 10h30. Logo que chegamos, consegui fotos boas de quero-queros em voo, um bando de periquitão-maracanã, e uma garça-branca-pequena pousando. Um freirinha fêmea, Que privilégio poder observar um pouco da vida na lagoa, as perseguições entre os frangos, a procura pelo alimento, acasalamento das jaçanãs, a breve perseguição da garça-moura atrás da garça-branca-grande, que tinha pescado um peixão, os patos-do-mato, a emoção de ver o casal de maçaricos-de-perna-amarela sobrevoarem a lagoa, olhar e poder dizer “Cris, não sei o que é aquilo” (só reconheci na foto) ver as aves se acostumarem com a gente e os frangos voltarem para a beira do lago, as marrecas que tinham voado voltarem para junto das outras à nossa frente. Também vimos uma capivara, jacaré, e até uma lontra, que o Cris fotografou bem de perto. Tudo isso

Depois descobrimos que o local que virou deserto aquático se chama Represa das Palmeiras. Provavelmente foi trabalho da prefeitura. A proliferação de plantas aquáticas, em especial os aguapés, é vista como um problema. Só é um problema se cobrir a superfície inteira. E só acontece quando a água está muito poluída. Os aguapés agem como filtros, proliferam, mas diminuem a poluição.

Zerar a vegetação aquática de uma lagoa é muito errado. Se está em seu poder orientar trabalhos como esses, pense nas aves e outros animais que dependem das plantas aquáticas, e na função anti-poluente dos aguapés.

Quando a represa teve a vegetação dizimada, imagino que aves morreram, por não saberem para onde ir, onde se alimentar e se abrigar. Mas ter encontrado essa lagoa secreta me deu esperança de que pelo menos uma parte delas consegue encontrar outros habitats. Cada vez mais raros, mas pelo menos aquelas ainda tinham um lar.

Ao bom samaritano que me avisou sobre a lagoa: por favor me perdoe por não ter conversado com você quando você apareceu no domingo. Vi que o Cris tinha ido falar, e eu fico tão fissurada vendo as aves que me abstraio de tudo, até do mínimo da boa educação. Me perdoe por não ter ido agradecer pessoalmente, e muito obrigada pela generosidade em indicar a lagoa. Nem sei seu nome, e devia pelo menos ter pegado seu e-mail para poder mandar algumas fotos, junto com um “muito obrigada”. Se você está lendo isso, ou se sabe quem é o homem de cabelo raspado, óculos de sol, que passeia com dois cachorros grandes (acho que eram labradores, um creme e outro marrom), por favor entre em contato comigo: claudia.komesu@gmail.com.

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