Não foi nossa ida à África mais fotográfica, mas os parques africanos são daqueles lugares que mesmo quando está ruim é bom. E o que dizer de cinco avistamentos de leopardos em cinco dias?

  • Texto: Claudia
  • Fotos: Daniel – Nikon D300 com Nikkor 300 f4 e tele 1.4, Cristian – Nikon D800 com Nikkor 300 2.8 e teles 1.7 e 2x, e Claudia – Nikon D800 com Sigma 50-500 VR
  • Aventuras no Kruger National Park – África do Sul, entre 13 e 19 de outubro de 2013

A África do Sul é um lugar para se conectar com a natureza, com várias mordomias do conforto da vida moderna. Esta foi nossa sexta viagem para a África do Sul desde 2006. Na primeira vez também fomos para a Namíbia, mas gostamos demais do Kruger, e sempre voltamos para lá.

Neste post há  descrição dos nossos passeios na semana do Saco Cheio (miniférias do Daniel). No fim da semana o Daniel e o Cris voltaram pro Brasil, eu fiquei mais uma semana no norte do Kruger (é a segunda parte do relato, com foco em aves, é claro). Os dias não foram espetaculares para a fotografia (cansaço, virose – que veio do Brasil, não foi africana), tempo nublado, chuva, não sair cedo em vários dias. Mas o que dizer de uma viagem com cinco avistamentos de leopardos em uma semana? E vários leões e hienas.

Aqui vai a descrição dos avistamentos, por grupo de dias:

1. Leops, hienas e leões. Tarde de domingo e segunda-feira: três encontros com leopardos, dois com hienas, um grupo de 8 leões

Entramos pela Phalaborwa Gate e logo nos primeiros 20 minutos no Kruger vimos dois leopardos. O primeiro cruzou a estrada na nossa frente, um pouco longe, sem chance de foto boa, mas acho que se estivéssemos mais perto ele não teria cruzado a estrada, provavelmente nem o veríamos. É uma emoção enorme topar com um bicho desses caminhando a luz do dia, e com exclusividade.

O segundo leopardo, vocês poderiam dizer que veríamos de qualquer forma, porque havia o usual agrupamento de carros em volta. Mas aí é preciso relatar nossas coincidências estranhas para formar um timing perfeito. A gente não devia estar naquela estrada. Nosso voo de Joanesburgo pra Phalaborwa tinha atrasado quase duas horas. Pegamos o carro e o plano era rodar por fora do parque até Skukuza, mas nos perdemos para pegar a R40 (em parte porque eu falei pra virar à direita num lugar que devíamos ter virado à esquerda). Passamos uns 20 minutos rodando de carro nos arredores da cidade, e então concordamos que a sugestão do Cris era a melhor: entrar por Phalaborwa, tentar arrumar um chalé em Letaba, e ir pra Skukuza só no dia seguinte.

Assim, graças ao atraso do voo e minha sugestão de pegar o caminho errado, tivemos a sorte de topar com dois leopardos em menos de meia hora dentro do parque.

Na manhã seguinte, nos arredores de Letaba, três hienas adultas andando pela estrada, à frente de três carros que as seguiam devagar. Era como se elas fossem os batedores. Não é dos predadores mais bonitos, mas vê-las caminhando pelo asfalto assim, tão destemidas, passa uma sensação de muita força e poder. Logo depois topamos com outro leopardo, dormindo numa árvore muito perto da estrada asfaltada. Havia a muvuca de sempre de carros, mas tivemos sorte, e pudemos ver o bicho se virar, se levantar e mudar de posição, de um ângulo que foi possível fotografar. O Cris e o Daniel conseguiram boas fotos, eu não. O bicho estava tão perto que fazia diferença entre o f6.3 e o f8, eu não percebi isso, e assim minhas fotos não estão com a cabeça do bicho perfeitamente em foco.

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A caminho de Skukuza na H1-3, um carro passa por nós, faz sinal para pararmos e avisa que na pequena estrada da Baobab Tree há um grupo de 8 leões. Tínhamos acabado de passar por ela. Voltamos. Um grupo dormindo meio longe, com o mormaço do dia distorcendo a imagem. Não botamos muita fé como foto, mas o Daniel sim, e conseguiu uma ótima foto de leõezinhos olhando pra câmera.

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Chegando em Skukuza, uma hiena com filhote dormindo na beira da estrada.

 

2. Rino para o Big 5. Terça, quarta e quinta-feira: sem grandes destaques de avistamentos, mas o primeiro Big Five, dois lifers, e algumas boas oportunidades fotográficas

Estávamos muito cansados. O pobre Dani viajou doente, provavelmente alguma virose. Na terça saímos tarde, depois das 7h (os portões abrem às 5h30 nessa época), mas a manhã não foi muito produtiva. Lá pelas 11h decidimos ir almoçar em Lower Sabie ver o que poderíamos ver no caminho. Uma Martial Eagle pousada, segurando algo que foi provavelmente um francolin em vida. Um pouco longe, e o mormaço já distorcia a imagem. Perto de Lower Sabie, os primeiros Nyalas. Machos adultos muito elegantes. Em Lower Sabie, Cape Glossy Starling e Village Weaver (comum, mas lifer pra gente) tomando banho juntos.

Decidimos ir até Crocodile Bridge, o extremo sul do parque. Ao sair do banheiro, ouvi uma vocalização, fiquei procurando onde estava, o Brown-headed Parrot mais próximo que já vi.

Na volta pra Skukuza, um ótimo Kori Bustard, belos Kudus, e a estranheza de ver muitos babuínos sentados no meio da estrada, como se fizessem piquete.

Eu vi pouco da volta. Não sei se era a virose, ou se foi o fish and chips de Lower Sabie, mas eu me sentia muito mal, fraca, e dormi quase o caminho todo.

Na quarta saímos de novo depois das 7h e topamos com as melhores fotos do dia: um pequeno grupo de babuínos cavando no chão e comendo raízes, sob a bela luz suave da manhã. Babuínos, como a maioria dos macacos, podem “descobrir” um agrupamento de pessoas e se acostumam a tentar invadir chalés, abrir geladeiras, até mesmo entrar em carros – atrás de comida. Mas aquele grupinho tinha uma imagem singela de babuínos não corrompidos, e havia dois jovens com olhos muito expressivos.

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O Daniel já estava melhor, e é um orgulho vermos como ele reconhece instantaneamente boas oportunidades fotográficas. Na hora que vimos os babuínos, perguntamos se ele queria fotografar, e ele pegou a câmera animadamente “sim, eles estão muito fofinhos”, e estavam mesmo.

Mais tarde topamos com uma girafa comendo flores amarelas, outra situação em que o Dani conseguiu a melhor foto. Também vimos o primeiro rinoceronte da viagem, um pouco ao longe, mas que rendeu o primeiro conjunto de Big Five da viagem – já tínhamos 3 leopardos, 1 grupo de leões, vários elefantes e búfalos. Também vimos o primeiro Broad-billed Roller, a primeira African Fish Eagle. Já no fim do dia, quase sem luz, vimos pousada uma águia que provavelmente é uma Wahlberg’s Eagle, outro lifer.

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A quinta-feira foi outro dia bem puxado: dia de mudarmos de campo, irmos pra Satara. Menos de 100km, mas pelo menos umas 3h de viagem. A velocidade máxima nas estradas de asfalto é de 50km, nas de terra á de 40km, e sempre paramos por algum avistamento. Sei que três horas de estrada não parecem muito, mas vínhamos de virose, alguma comida ruim, mais de 15 horas em voo e aeroportos, fuso horário de 5h de diferença, muitas horas rodando de carro pelas estradas. O Cris dirigiu a maior parte do tempo, eu só em alguns trechos. O Daniel ia no banco do acompanhante – um privilégio de andar em parque fechado, em que o limite de velocidade é 50km/h, ele era no copiloto-eficiente, e estava adorando o status. Mas em uma ou duas ocasiões, paramos o carro para o Cris poder tirar um cochilo também.

A quinta não foi de muitas fotos, mas houve uma horrível. Abominação. Dois carros parados, que se afastaram quando chegamos perto. Um filhote morto. Chegamos mais perto, olhamos com a câmera, era um filhote de rinoceronte morto por caçadores. O corte reto de um facão, as tripas expostas. Nenhum abutre, nenhum chacal ou hiena por perto. Provavelmente naquela noite ou madrugada. Ali, na beirada de uma estrada de asfalto do maior parque nacional da África do Sul. Tirei uma foto como registro e fomos embora. Acho que os outros carros esperavam para ver se chegariam chacais ou outros predadores, mas talvez tenham se envergonhado e ido embora quando chegamos. Eu é que não ia esperar, me sentindo um próprio abutre. Se fosse possível, faria um enterro para aquele filhote. Silêncio no carro. Estávamos todos tristes, mas acho que eu ainda mais, tão triste e brava, parecia que minha raiva era uma nuvem no carro, o Cris ficou apertando meu ombro (era um dos trechos em que eu dirigia), como quem diz “eu sei, eu sei”.

É importante dizer: esses dias em Skukuza foram mais fracos de fotos, mas algo que certamente influenciou foi o fato de não sairmos cedo (cansaço, Daniel doente, nós três bem afetados pelo fuso de 5h e o ritmo cansativo).  Numa manhã que o Cris saiu cedo, e eu fiquei com o Daniel no chalé, o Cris topou com um bom rinoceronte bem de perto:

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3. A volta dos predadores. Sexta-feira e sábado: a volta dos leões, leopardos e hiena

Em Satara voltou nossa sorte com os predadores. Fomos rodar pela famosa S100, e logo de cara topamos com um grupo de uns 6 leões adultos cruzando a estrada (vários carros em volta, acompanhando o grupo, que até então andava na beirada da estrada). Provavelmente eram machos adultos. Alguns pareciam fêmeas, mas em outros se via uma juba rala. Pelo o que a gente sabe, leões que não têm um grupo de fêmeas perdem a juba, que só volta a crescer se eles ganham uma briga com um leão dominante e herdam o harém.

Logo que entramos na S41, topamos com mais dois carros parados, observando um grupo de leoas com filhotes pequenos. Pena que um pouco ao longe, e mormaço demais para uma foto boa. Na volta pra S100, vários carros parados bloqueando a estrada. Primeiro pensamos que eram mais leões, mas não: um outro leopardo, o quarto avistamento da viagem, dormindo numa pose absurda, como se tivesse sido arremessado por uma bomba na árvore. Ficamos tempo suficiente para vê-lo levantar e mudar de posição. Pena que o mormaço impossibilitou boas fotos.

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Sim, o mormaço é realmente um problemão, em geral ele estraga as fotos. É preciso ser um excelente fotógrafo e ter condições bem especiais para usar o mormaço a seu favor, para criar um efeito bonito nas imagens. O Kruger não é absurdamente quente, na verdade nesta viagem pegamos vários dias frios, de 16 graus. Os dias de calor eram de 26, no máximo 28 – mas já o suficiente para distorcer as fotos depois das 9h.

Voltamos pra Skukuza, almoçamos, saímos depois das 15h. Muitas zebras e girafas pela H6, e no meio da H6. A melhor Verreaux’s Eagle-owl que já vimos (essa coruja pesa até 3kg e tem 1,40 de envergadura, imagine), um campinho com belos babuínos cuidando uns dos outros na luz do fim de tarde, e juvenis da Sadle-billed Stork, algo que nunca tínhamos visto.

O sábado era nosso último dia inteiro. No domingo o Cris e o Daniel pegariam o voo ao meio-dia em Phalaborwa, e eu seguiria rumo ao extremo norte do parque. O dia amanheceu nublado e com uma chuva fina. Decidimos ir passear de novo pela S100. Uma hiena adulta deitada, encolhida, com pose de cachorro, olhos gentis. Mais pra frente, a chuva aumentou, e as aves faziam a festa num minilago. Nunca entendo como é que sai tanto peixe de lugares que parecem ter tão pouca água. Uma Saddle-billed, várias Yellow-billed, Garça-real-europeia, Hamerkop, Wooly-necked Stork. A Saddle era o gangster da área: bem maior do que as outras, em alguns casos bastava avançar alguns passos para uma Yellow-billed largar o peixe pescado. Ficamos mais de uma hora fotografando e observando o movimento das aves, até que o Daniel pediu para irmos embora.

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Na volta para o campo, uma Tawny-eagle pousada, um casal de Bateleurs, um grupo de Wattled Starlings – primeira vez que vimos o macho com a plumagem nupcial, aquele estranho saco preto que cresce no pescoço, a pela amarela na cabeça. Todas as aves não estavam longe, mas havia pouca luz, e o Daniel já estava cansado.

Chegamos de volta ao campo antes das 9h. Daniel foi curtir o Ipad, nós fomos fotografar a fauna nos arredores do chalé. Cris pegou ótimos Red-winged Starlings construindo ninho, e também bons Green Wood-Hoppoe. Eu me diverti com um casal de Bearded Woodpecker pousados a menos de 1m do chão, totalmente alheios à nossa presença, e depois com um Red-billed Buffalo Weaver forrageando. Aqueles momentos em que você pode sentar no chão, observar a ave com tranquilidade, pensar que fotografar a fauna dos campos é uma das ótimas partes do passeio.

Depois das 15h voltamos a sair. Fomos pra S12. No buraco d´água, um grupo de zebras com um filhote pequeno. Rendeu boas fotos. Quando já pensávamos em ir embora, aparecem duas leoas. Passamos um tempo observando-as, elas estavam longe. Foi engraçado ver um elefante aparecer na área, decidir passar perto do local onde elas descansavam, e ver as duas se levantarem para dar passagem ao jotalhão. Em duas ocasiões pensamos em ir embora, o Cris quis ficar mais, e então apareceu uma terceira leoa, e as três festejaram o reencontro. Trocaram patadinhas, carícias, chamegos, uma delas deitou de barriga pra cima. Gatos grandes. Pena que um tanto longe demais.

Elas foram caminhando (aquele buraco d´água era um ponto de encontro. As duas estavam sentadas lá esperando a terceira chegar, e quando ela chegou, as três foram embora), ainda conseguimos acompanhá-las por um trecho. As três tornaram a sentar num ponto mais alto do morro, e vimos que era um lugar especial, com uma vista panorâmica da planície. Os bichos sabem de tudo.

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Já havíamos encerrado o dia. Pra minha lente 6.3, a luz já tinha acabado fazia tempo. Eu não estava mais olhando em volta, já olhava o mapa pensando na distância até Phalaborwa, no caminho que faríamos amanhã, então não sei se o leopardo estava à minha vista na beira da estrada, ou se estava embrenhado e só apareceu pro carro de trás.

Mas o carro de trás tinha anjos. Eles deram sinal de luz, o Cris voltou, emparelhamos com eles, não sabíamos o que eles tinham visto, o anjo motorista – uma jovem de cabelos loiros compridos, óculos, rosto anguloso, sorria e disse “leopard”. Dois segundos olhando em volta, e então vimos o jovem leopardo, fazendo o que todo animal jovem é capaz de fazer: desfilar sem medo na frente de pessoas. Ele caminhou alguns segundos na beira da estrada, e depois foi se embrenhando devagar na vegetação.

Ignorei a ideia de que já não tinha luz, pus o ISO nas alturas e voltamos a fotografar. Nunca tínhamos visto um leopardo tão de perto, e em atividade assim, caminhando, minimajestade.

Acompanhamos o leopardo por alguns metros até ele desaparecer. Tivemos a sorte de emparelhar de novo com o carro da moçada que nos avisou, falei pro Cris “fala thank you, fala thank you”, ele agradeceu com um “thank you so much” de todo o coração.

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E este foi nosso último dia juntos no Kruger em 2013. Na manhã seguinte levei o Cris e o Daniel pra Phalaborwa. Nada muito especial no caminho, exceto um bom martim-pescador na beirada da estrada, em que pude posicionar o Cris pra ele fotografar. Saí do aeroporto antes do avião deles chegar, só soube depois que o voo local atrasou três horas e eles quase perderam o voo pro Brasil.

E começava a minha aventura sozinha no Kruger. Para o próximo post: http://heart3.me/vg-africa-do-sul-out13-p2/